Entre a omissão e a responsabilidade, o governador capixaba pode se tornar a voz racional de uma esquerda sequestrada pelo autoritarismo petista — ou apenas mais um cúmplice do silêncio.
“Entre o silêncio da conveniência e a coragem da ruptura, Renato Casagrande pode escolher ser estadista — ou apenas mais um personagem menor no rodapé da história.”
A história não costuma ser generosa com os que se omitem nos momentos decisivos. Entre os que silenciam por conveniência e os que ousam desafiar o dogma, nasce a oportunidade rara de se tornar símbolo de uma virada. Resta saber qual escolha fará Renato Casagrande diante da escalada autoritária que corrói o equilíbrio entre os poderes no Brasil.
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A visita de Lula ao Espírito Santo e o subsequente gesto de afago do governador Renato Casagrande ao presidente ocorreram sob o signo da ambiguidade. Ao mesmo tempo em que Casagrande aponta para a necessidade de o presidente “consertar o país”, sua fala carrega o subtexto de uma crítica implícita, mas relevante, ao colapso institucional que se aprofunda no Brasil — liderado por um Supremo Tribunal Federal hiperpolitizado e por uma elite política que transformou o Judiciário em bunker ideológico.
A fala, embora revestida de cordialidade republicana, revela um incômodo crescente. Casagrande parece discernir, com lucidez rara entre seus pares, que a esquerda brasileira foi sequestrada por uma lógica binária e totalitária que alimenta Lula tanto quanto alimenta seus opositores mais radicais. Nesse teatro de antagonismos fabricados, a moderação tornou-se heresia e a crítica interna, traição.
Como advertiu Hannah Arendt, “em tempos de escuridão, dizer a verdade se torna um ato revolucionário”. A verdade hoje é que o Brasil vive sob um desequilíbrio brutal entre os Poderes da República, onde o STF deixou de ser árbitro constitucional para se tornar protagonista de disputas políticas. Alexandre de Moraes é, atualmente, o mais poderoso operador político do país — sem jamais ter recebido um único voto.
E é neste cenário que Casagrande se encontra: entre o silêncio cúmplice ou a coragem de se erguer como voz dissidente dentro de um campo político que, outrora defensor das liberdades, agora aplaude censura, perseguições jurídicas e blindagens seletivas. Como bem escreveu Norberto Bobbio, “o Estado democrático morre não com tiros, mas com o aplauso dos que se beneficiam do autoritarismo em nome da justiça”.
A crítica velada do governador ao modelo de governança lulopetista e à centralização ilegítima dos poderes deve ser entendida como uma encruzilhada histórica. Durkheim nos lembra que “a sociedade não é feita apenas de contratos, mas de consciência moral compartilhada”. A ausência dessa consciência moral, hoje, é o que permite a naturalização do arbítrio travestido de institucionalidade.
Casagrande, um dos nomes mais ponderados do PSB, tem diante de si a rara oportunidade de romper o cerco da polarização que mantém Lula artificialmente vivo no imaginário popular como única alternativa à barbárie. Se decidir sustentar sua crítica e se posicionar com firmeza contra a agenda radical — inclusive no contexto da crise diplomática com os EUA e da desastrosa política econômica intervencionista — poderá escrever seu nome na história como o articulador de uma nova esquerda: democrática, laica, constitucionalista e responsável.
Caso contrário, será lembrado apenas como mais um gestor eficiente que, diante do abismo, escolheu o conforto da omissão. Como lembrou Raymond Aron, “a política é o domínio da escolha entre o preferível e o detestável”. E quando se opta pela neutralidade diante do detestável, já se está colaborando com ele.
Se há ainda espaço para uma esquerda que não precise dos extremos para sobreviver, ela precisará de lideranças que saibam assumir riscos. Casagrande pode ser essa liderança. Ou pode apenas assistir, calado, o bonde da história passar — levando com ele as últimas esperanças de equilíbrio, liberdade e civilidade em um país cada vez mais tutelado por verdades únicas e justiceiros togados.










