Impactos ocultos da nova ETE na Grande Vitória exigem transparência, critério técnico e visão estratégica
Não caia no engodo da narrativa “Serra vitimada, Vitória vilã”. O assunto vai muito além disso.
A implantação de estruturas de reúso de água oriunda do esgotamento sanitário vem se consolidando como solução moderna diante dos desafios ambientais e hídricos enfrentados pelas grandes cidades. Contudo, na Região Metropolitana da Grande Vitória, um projeto dessa magnitude exige leitura mais ampla — que envolva também as esferas urbanística, fiscal e político-institucional.
O avanço do projeto da nova Estação de Tratamento de Esgoto (ETE), conduzido pela Cesan sob a presidência de Munir Abud, revela uma arquitetura de decisões estratégicas cujos efeitos ultrapassam a engenharia sanitária. Estamos diante de uma operação que poderá gerar impactos tributários, territoriais e urbanos significativos — com projeção de arrecadação superior a meio bilhão de reais ao longo dos próximos anos.
Silêncio institucional e desalinhamento fiscal
Embora tecnicamente legítimo, o projeto tem enfrentado um vácuo de diálogo claro com os entes municipais envolvidos — especialmente quanto a aspectos fiscais, contábeis e urbanísticos.
Ao contrário do que se tem veiculado em espaços informais, não existe disputa institucionalizada entre os municípios da Serra e Vitória. O que há é assimetria de consequências e lacuna no trato federativo, que precisam ser superadas por meio de mecanismos públicos de pactuação.
Enquanto Vitória é a origem dos efluentes, a Serra será o território receptor da estrutura de reúso, colhendo os frutos fiscais e estruturais a médio e longo prazo. Essa lógica, embora juridicamente possível, precisa ser acompanhada com transparência, cooperação e critério técnico, especialmente à luz do novo marco fiscal brasileiro e da Reforma Tributária, com a criação do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).
Vitória: reconfiguração urbana à vista
Paralelamente, observa-se o início de um processo de requalificação urbana na área onde hoje opera a ETE de Vitória. Há sinais claros — tanto públicos quanto privados — de que essa região poderá se transformar em um novo vetor de expansão imobiliária da capital.
Esse tipo de reconfiguração segue tendências globais de reintegração de zonas industriais à malha urbana. Entretanto, para ter legitimidade, o processo precisa ser pautado por laudos técnicos, audiências públicas e critérios ambientais sólidos.
O risco das narrativas políticas
A ideia de que a Serra será “penalizada” por receber a nova ETE carece de fundamentos objetivos. Pelo contrário: o município poderá se tornar referência regional em reúso de água industrial, com benefícios diretos sobre sua estrutura fiscal, logística e econômica.
O verdadeiro risco está na politização artificial do tema. Disputas legítimas por planejamento urbano não devem ser convertidas em arenas ideológicas de confronto. A usina — se bem gerida — poderá representar um ativo estratégico para o município que a acolher.
Considerações finais: o que está realmente em jogo
A Região Metropolitana da Grande Vitória exige, com urgência, governança integrada, pactuação intermunicipal e decisões baseadas em dados. A implantação de uma ETE, a reconfiguração de solo urbano e os impactos arrecadatórios envolvidos não podem ser ocultados sob o manto da tecnocracia, tampouco simplificados como disputas territoriais.
O que se vê é uma reconfiguração urbana, ambiental e fiscal de larga escala — que precisa ser conduzida com transparência, isenção e responsabilidade democrática.










