A política capixaba caminha para uma inflexão histórica. O que até pouco tempo atrás parecia uma estrutura sólida e costurada com habilidade por Casagrande uma frente ampla estadual com partidos do centrão e da esquerda em harmonia pragmática agora começa a revelar rachaduras profundas. E uma delas pode vir justamente do União Brasil (UB), partido que até aqui esteve alinhado ao projeto do atual governador por meio de figuras estratégicas como Marcelo Santos, presidente da Assembleia Legislativa.
Acontece que os ventos de Brasília sopram em outra direção. A executiva nacional do União Brasil já trabalha com a diretriz clara de consolidar palanques de oposição nos estados, como forma de se reposicionar nacionalmente e recuperar protagonismo diante da polarização crescente entre Lula e a direita liderada por Bolsonaro e seus aliados. A neutralidade pragmática que funcionava até 2022 está se tornando, para 2026, um fardo eleitoral. Em resumo: o partido precisará escolher um lado e esse lado pode não ser o de Casagrande.
Se o União Brasil decidir romper com o Palácio Anchieta, Marcelo Santos enfrentará um dilema estratégico: manter-se fiel ao governador e arriscar-se a perder o controle da legenda, ou reposicionar-se rapidamente para não ser atropelado por um novo bloco de poder que vem ganhando força no Estado.
Esse bloco tem nome, sobrenome e agora, rumo: Lorenzo Pasolini. Prefeito de Vitória, com alta aprovação e perfil técnico-político valorizado até mesmo fora do Estado, Pasolini surge como o possível pivô de uma aliança conservadora estadual que começa a se consolidar em torno do PL (de Magno Malta), Republicanos (com Erick Musso), e possivelmente o PP (com Evair de Melo).
A movimentação mais simbólica e potente desse novo ciclo político ocorreu neste último domingo. Erick Musso que durante anos orbitou com autonomia entre centro e governo atendeu pessoalmente ao chamado de Magno Malta e da direita capixaba, marcando presença num ato público em defesa da liberdade e em apoio ao ex-presidente Bolsonaro. Esse gesto não foi apenas protocolar. Foi um recado. Um aviso claro de que Erick não está neutro. Ele está se reposicionando e com peso.
E com esse gesto, a resistência que parte da direita local ainda tinha em relação à presença de Maguinha Malta como nome possível do PL ao Senado praticamente se dissolveu. O gesto de Musso legitimou o campo conservador unificado, e colocou sobre a mesa a possibilidade real de um tsunami político com impacto profundo sobre o projeto da esquerda capixaba.
Agora, se o UB romper, se o PP consolidar apoio a Pasolini, e se o PSD que hoje já flerta com a direita em diversos estados bater o martelo em favor dessa nova frente conservadora, a eleição de 2026 no Espírito Santo deixará de ser um campo de disputa para se tornar um terreno de sobrevivência para a esquerda.
Nesse cenário, a candidatura de Pasolini ao Governo ganha contornos de inevitabilidade e poder real. Ele tem perfil técnico, discurso moderno, base popular e, acima de tudo, não carrega o desgaste de Casagrande ou os vícios do sistema político tradicional. Ao seu lado, uma Maguinha Malta candidata ao Senado pelo PL traz peso, linha direta com Bolsonaro e capacidade de mobilização nacional.
Isso cria um palanque que poderá unir desde evangélicos e setores conservadores da base até liberais econômicos e gestores técnicos que não querem ver o Espírito Santo sendo transformado em satélite de um governo federal cada vez mais alinhado ao eixo autoritário do BRICS, à agenda da Venezuela e ao isolamento comercial provocado pela política externa desastrosa de Lula.
A resposta de Trump contra o Brasil com medidas tarifárias e sanções é apenas o primeiro reflexo de uma geopolítica que o governo Lula parece ignorar — mas que os estados não podem. O Espírito Santo, com sua vocação portuária, sua zona de exportação estratégica e sua economia enxuta, não pode bancar os custos de um alinhamento cego ao PT. E a classe política estadual começa a perceber isso com clareza.
A tarefa de Casagrande, diante desse novo cenário, será hercúlea: manter um palanque unificado entre PT, PSB, PSOL, PCdoB, PV e setores do MDB, ao mesmo tempo em que tenta segurar partidos do centro como UB, PP e PSD, que já demonstram fadiga com a coalizão atual. O espaço para todos já era difícil agora beira o impossível.
A verdade é que a política capixaba começa a viver o mesmo movimento de redesenho que está em curso em outras partes do Brasil: uma polarização real, não artificial, onde a centro-direita unificada pode se tornar majoritária desde que saiba se articular com clareza e coragem.
E neste domingo, a coragem apareceu. Erick Musso mostrou que está pronto. O PL mostrou força. E Pasolini começa a deixar de ser apenas uma boa opção para se tornar um projeto de poder viável e crescente.
Análise do dia
O tabuleiro se move. E quem não entender isso, será engolido por ele.










