Movimento estratégico do governador mira neutralizar avanço de Contarato, mas aproxima MDB da esquerda e pode cobrar preço nas urnas
A movimentação política do governador Renato Casagrande (PSB) nas últimas semanas não deixa dúvidas: ele decidiu buscar de forma ativa o eleitorado lulista no Espírito Santo. Trata-se de uma escolha estratégica clara — e arriscada — para evitar o crescimento de uma liderança incômoda à sua hegemonia: o senador Fabiano Contarato (PT).
Com trânsito direto no governo federal, Contarato vem ganhando espaço junto às bases do PT no estado e, mais do que isso, surge como potencial concorrente em 2026, seja para o Senado, seja para o Executivo. Casagrande, atento, parece querer bloquear esse avanço ocupando o espaço de interlocutor preferencial do governo Lula no Espírito Santo, mesmo que para isso tenha que sacrificar a ambiguidade política que sempre lhe garantiu apoio difuso.
Efeito colateral: Ferraço empurrado à esquerda
O problema está no efeito colateral dessa escolha: ao buscar os votos do PT, Casagrande pode estar empurrando, ainda que de forma dissimulada, o seu pré-candidato ao governo, Ricardo Ferraço (MDB), para o campo da esquerda.
Ferraço, que já foi um nome respeitado no campo do centro e com diálogo aberto com setores liberais, será associado — queira ou não — ao lulismo por tabela. E isso pode comprometer severamente seu crescimento entre o eleitorado de centro-direita e entre os moderados cansados do radicalismo, mas desconfiados da esquerda petista.
A economia nacional vai cobrar esse alinhamento
Em um momento em que a política externa do governo Lula sofre críticas contundentes — com declarações polêmicas sobre ditaduras, apoio a regimes autoritários e tropeços diplomáticos —, a economia brasileira tende a sentir os efeitos dessas escolhas. E o Espírito Santo não passará ileso.
O agronegócio, os exportadores capixabas, os pequenos empresários e a classe média urbana já demonstram sinais de inquietação com os rumos adotados pelo Planalto. O alinhamento de Casagrande ao lulismo poderá reforçar entre os capixabas a sensação de que o atual grupo no poder no estado fechou os olhos para os impactos negativos que essa política terá sobre o dia a dia da população.
Eleitor de centro deve reagir
Enquanto o custo de vida aumenta, investimentos se retraem e a insegurança jurídica cresce, será cada vez mais difícil para Ricardo Ferraço se apresentar como uma “alternativa de bom senso” se continuar atrelado a um projeto cada vez mais identificado com a esquerda.
O eleitor de centro e centro-direita, que antes era ambivalente ou indiferente, tende a entrar com mais força no debate nacional e buscar novas lideranças, especialmente diante do vácuo de representação e do desgaste das políticas econômicas federais.
Conclusão política
A estratégia de Casagrande pode até funcionar no curto prazo para conter Contarato e tentar garantir seu legado via Ferraço. Mas o custo dessa aproximação explícita com o lulismo pode ser alto demais.
Ao empurrar seu grupo para o campo ideológico da esquerda, Casagrande pode ter assinado o atestado de perda definitiva do centro político capixaba — um espaço que, historicamente, decide eleições no Espírito Santo.
E, num cenário onde o impacto do governo Lula na economia se tornará cada vez mais evidente para o eleitor comum, essa guinada à esquerda pode cobrar seu preço nas urnas.










